Macau perdeu ontem um nome incontornável da história do karatedo: José Martins Achiam. Aos 64 anos, o “mestre”, como carinhosamente lhe chamavam os amigos e aprendizes, sucumbiu devido a um acidente vascular cerebral (AVC).
Deu os primeiros passos no judo, mas foi pelo karatedo que se apaixonou. A modalidade no território, essa, cresceu com ele – “o impulsionador”, como o define o amigo Lourenço Rosário. O cenário da década de 60 em Macau levou-o para Hong Kong, já que, depois de ter cumprido o serviço militar, encontrar um posto no território era praticamente impossível. Aí, José Achiam encontrou aquele que viria a ser o seu mestre: o japonês Yukiaki Yoki. Mais tarde, uma técnica denominada Seigokan foi oficialmente introduzida em Hong Kong e José Achiam não pensou duas vezes. Quando alcançou o cinturão castanho, começou ele próprio a ensinar o estilo nipónico “Goju Ryu Seigokan” aos amigos em Macau e vem, por isso, mesmo citado na biografia do grande mestre Seigo Tada. Mais precisamente pelo facto da técnica japonesa se ter espalhado pelo Brasil, Portugal, Canadá ou Estados Unidos sob a influência do macaense.
Eram sessões árduas que duravam cinco longas horas, num quintal, sem espaço para diversões. Tempos em que não haviam dojos, quimonos ou tatamis e em que o regime de Salazar proibia a prática daquela arte marcial.
“Era com sacrifício que ele vinha aos fins-de-semana para Macau”, destacou o actual vice-presidente do Comité Olímpico, Manuel Silvério, que teve o Shihan (que significa mestre) como instrutor nos tempos de escola.
Além de perder um amigo e um “colega de longa marcha”, Manuel Silvério vai mais longe. “Tenho a sensação que Macau ficou morto”, sublinhou o responsável, referindo-se ao facto de terem falecido com a distância de sensivelmente um mês dois grandes ícones da modalidade: José Achiam e Lísbio Maria Couto.
José Tavares partilha da mesma opinião. “É uma perda enorme para o desporto, porque falamos de uma pessoa que dedicou a sua vida inteira a ele”, salientou o vice-presidente do Instituto do Desporto, acrescentando que a perda alcança o plano internacional. Isto porque José Achiam ocupava o cargo de Secretário-Geral da Federação Asiática de Karaté, era membro do Comité Executivo da Federação Mundial de Karaté e ainda director chefe da Seigokan do Japão no território.
Há 20 anos a privar com José Achiam, José Tavares tem uma palavra para o caracterizar: “Líder”. E, como qualquer líder, continuou, “é uma pessoa que sabia o que queria, tinha um carácter muito próprio e era uma figura de peso”. A isto soma-se a contribuição para o desporto. Medalhas e títulos não faltam no espólio que José Achiam deixa como memória viva das vitórias alcançadas.
António Fernandes cruzou-se com o mestre ainda no Colégio D. Bosco. José Achiam era bem mais novo, mas isso não impediu que uma amizade florescesse. “Era um grande amigo”, salientou o presidente da Associação Recreativa dos Deficientes.
Mas não era só no desporto que o presidente e fundador da Federação de Karatedo de Macau se evidenciava. O papel de “lutador” é-lhe atribuído por Lourenço Rosário pelas investidas em prol da diáspora macaense que levou a cabo pelos quatro cantos do mundo com a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), onde era vogal.
José Luís Sales Marques, que não esperava o falecimento, também realça o lado social de José Achiam que, como membro do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses, levou Macau além fronteiras. “Empenhado e activo” – é assim que o presidente do Instituto de Estudos Europeus vê José Achiam, com quem conviveu de perto em vários projectos associativos. Basta pensar nas comunidades macaenses. Como sublinhou Sales Marques, Brasil e Canadá são apenas dois países onde José Achiam exortou o papel da diáspora.
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