Sobre a língua Japonesa


Faz mais de vinte anos, em um exame de faixa de uma federação, aconteceu um fato que me chamou a atenção. Um rapaz que havia treinado com um mestre japonês por muito tempo, veio fazer o exame para shodan. Seu mestre já havia falecido e ele veio treinando sozinho. No exame, ele executou um kata. Acho que era o Tekki shodan ou Naifanchi-shodan. Um dos mestres da banca examinadora (hoje já falecido) reclamou que o kata executado estava errado.
O rapaz retrucou, falando que o kata dele não estava errado. Que poderia estar diferente do padrão, mas errado não, pois era assim que ele havia aprendido de seu mestre. Um dos mestres que estava na banca, concordou plenamente com a afirmação do jovem.
Este fato narrado é para ilustrar um aspecto que existe tanto no karatê-do como também na educação como um todo. Há uma tendência muito forte de tentar classificar qualquer coisa como certo ou errado. Entretanto, as pessoas se esquecem de que a classificação de certo ou errado vai sempre depender do contexto.
“Enquanto o viajante espera por bom tempo, o agricultor espera por chuva.” (provérbio chinês)
Levando em consideração este aspecto do certo ou errado, vamos agora analisar sobre os nomes em japonês de golpes no karatê. Muitas vezes, vi discussões entre praticantes da arte que tentavam definir o nome certo de dada técnica.
Claro, existe uma norma da própria língua japonesa que acho que deve ser respeitada. Por exemplo, a palavra tsuki (soco), que acaba mudando com a combinação de outras palavras, como em Tsuki-waza (técnicas de soco) e em guiaku-zuki (soco – contrário, soco desferido pelo lado reverso do corpo). É que existe uma regra na língua japonesa em que a sílaba “tsu” muda para “zu” quando é colocada atrás de uma outra palavra. Mais exemplos, tsuki-gaeshi, jun-zuki, oi-zuki, morote-zuki, yama-zuki, seiken-zuki. Pode ser ver o mesmo com a palavra keri (chute), keri-waza, tobi-gueri, mae-gueri, yoko-gueri, etc.
Agora tomando esta última palavra como exemplo, o yoko-gueri, é uma palavra formada por dois ideogramas 横yoko, que significa lado, e蹴り, keri, que significa chutar. Talvez a maioria dos karatekas conheçam yoko-geri como o chute desferido para o lado, com a parte sokuto, a chamada faca do pé. Entretanto, este não é o único tipo de chute que recebe este nome. O chute que é desferido com o corpo de lado, mas que é mais parecido com o mae-gueri, também recebe este nome. No estilo Wado-ryu ou em Shorin-ryu, em alguns katas podemos ver este yoko-gueri.
Em Goju-ryu também, mais especificamente nos dojos mais antigos da Seigokan, a palavra yoko-gueri indica um chute que é desferido nos flancos do adversário. Seria um meio termo entre o mae-gueri e o bem conhecido mawashi-gueri. Ora, pode haver uma confusão em termos de padronização de nomes para o karatê, mas creio que é importante entender algo que é mantido por tradição também. Historicamente, na fase inicial do Karate no Japão, não existia o que hoje conhecemos como mawashi-gueri. Este chute foi desenvolvido pelos universitários japoneses, como uma variação do mae-gueri. Para atestar este fato, basta ver que nos katas não existe nenhum mawashi-gueri.

Resumindo, no caso do yoko-gueri, o ideograma yoko, indica ora a direção lateral de quem chuta, ora a posição do corpo no momento do chute, ora o local do oponente em que se direciona este chute.
Agora, vamos levar em consideração o nome dado a uma defesa comum a vários estilos e escolas. Em detalhes não seria a mesma defesa, mas em essência é uma defesa parecida. A defesa que é feita à frente do peito, com o braço dobrado, em que a parte que entra em contato seria o lado do osso radial recebe o nome de chudan-uke, yoko-uke, soto-uke, uchi-uke e o shomen-no-uke. Já vi situações em que um praticante de uma escola critica o nome desta defesa em outra escola, falando o que é certo ou errado. Uma discussão que já ouvi algumas vezes foi em relação ao termo soto-uke e uchi-uke. Soto-uke utiliza os kanjis 外que significa fora e受け que significa defesa. E o uchi-uke pode ser escrito com内 que significa dentro e受け que significa defesa. Um problema é que só com estes dois kanjis, soto 外e uchi内, não definem se é defesa para fora ou defesa de fora, ou defesa para dentro ou defesa de dentro. Isto é, não existe só nos kanjis a definição se a defesa inicia ou termina em tal posição. Fora este problema, existe o problema das palavras homófonas, com a mesma pronúncia, mas que usam kanjis diferentes. Por exemplo, o uchi-uke que utiliza o kanji打ちque significa bater e受け, defesa, é utilizada para a defesa em que, ao mesmo tempo em que se defende, se busca percutir o braço, ou então em que o movimento pode ser utilizado diretamente como ataque. Logo para muitas situações, o praticante que não domina o japonês deve tomar cuidado com esta particularidade dos kanjis terem a mesma pronúncia e significados diferentes.
Mas ao considerar o aspecto marcial nos primórdios do Karatê, não havia uma grande necessidade de determinar o nome, já que um movimento poderia ser utilizado em várias aplicações. E os nomes passaram a ser definidos quando o Karatê como desporto, precisava de uma padronização, justamente no momento que passou de Okinawa para o continente japonês. Ora em Okinawa se fala um dialeto que é bem diferente do resto dos dialetos do continente japonês, e no momento que o karatê foi ensinado aos não-okinawenses houve naturalmente uma dificuldade de padronizar e transmitir os termos escolhidos por cada mestre. Houve um grande esforço dos primeiros mestres em fazer o karatê-do se difundir pelo mundo, mas não foi possível padronizar totalmente os termos devido à importância que cada um dava para algum aspecto da técnica.
Concluindo, hoje no Japão, a Zen Nihon Karate Renmei ou a All Japan Karate Federation (JKF) busca uma certa padronização dos termos. Entretanto, a importância desta padronização, na minha opinião pessoal, restringe-se a aspectos didáticos, pois apenas saber o nome mais padronizado não permitiria que alguém possa executar com mais eficiência as técnicas nomeadas. Isto é, a forma não deve se tornar mais importante que o conteúdo.


Comentários

Claudia Felippe
12 Dez (22:24)
Texto maravilhoso, parabéns Joetso!!!!

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